Hoje quando entrei no meu prédio dei conta de um papel branco escrito à mão que estava colado ao lado do espelho que nos presenteia a entrada. Movido pela curiosidade natural resolvi ler o que estava redigido, não fosse algum aviso especial, algo de prestar atenção. Na verdade era um obituário. Não era a primeira vez que me encontrava numa situação destas. Habito num prédio onde de vez em quando, pela ordem natural da vida, e da idade das pessoas que aqui habitam esses anúncios vão aparecendo. O que mais me chamou a atenção é que era a minha vizinha de baixo. Uma pessoa que vivia a meus pés, literalmente, que eu conhecia apenas por barulhos e vozes. O meu prédio tem quatro casas em cada andar, e os vizinhos, principalmente de longa data, vão escolhendo as amizades. Não existe uma relação de proximidade num "olá bom dia", "boa tarde", "olá, quem sai primeiro do elevador?". Não, não existe. E apesar disso sentia uma proximidade absurda porque à noite quando me deitava era talvez o momento, em silêncio antes de me deixar ir nos braços de Morfeu, que por vezes partilhava da vida dessa minha vizinha, na voz das conversas que ouvia, dos barulhos que todos os prédios mais ou menos têm e sentem. Enfim, naquela proximidade absurda que me fazia crer de alguma maneira conhecer aquela outra pessoa. E cuja chama se extinguiu. Provavelmente se vir uma foto não sei sequer distingui-la, não existiam laços de amizade, nunca lhe fui pedir um ramo de salsa. Mas fez-me recordar todas as caras conhecidas, amigas, familiares a quem quero muito e espero amar até à eternidade. É um pouco lamechas, talvez demasiado etéreo, mas sincero.
Espero que esta senhora descanse em paz.
UGUlandia
Terça-feira, 22 de Maio de 2012
Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
Aviso!
Eu amo-a, eu
amo-a, eu amo-a, eu... Não sei se repetir a mesma ideia duzentas vezes me vai
ajudar a tê-la nos meus braços. A sentir o seu corpo quente contra o meu. Dou
uma volta na cama enquanto sinto uma inusitada demonstração de vigor no meu
corpo. Sinto-me muito atraído por ela, quero vivê-la mais além dos meus sonhos,
conhecer o sabor da língua dela, tocar o seu corpo. Vou voltar a enviar-lhe um
sms. “Gostava que estivesses aqui”. Como imagino a sua cara de estupefacção e
curiosidade para saber quem lhe envia estas carinhosas mensagens.
Toca
brevemente o meu telemóvel. “Quem és?”, leio. Adoro este jogo de sedução em que
parece que somos dois desconhecidos. Como gosto do mistério e da aventura de
voltar a conquistar alguém. Respondo simplesmente: “Sou eu, estou a pensar em
ti”. Para bom entendedor meia palavra basta. Recordo vivamente os olhos dela,
também recordará os meus. Mando uma mensagem no impulso do momento: “Quero-te!”.
Quase de imediato responde também. Eu, na ansiedade quero lê-la
instantaneamente, mas ignoro durante alguns minutos, para aumentar a ansiedade,
degustar a antecipação, sentir a emoção devorar-me bocadinho a bocadinho. Quase
a rebentar, esbugalho os olhos no ecrã do telemóvel: “Pára de me enviar
mensagens ou faço queixa à polícia. Último aviso, acredita.”
Quarta-feira, 14 de Março de 2012
Aiôn em três actos
Está a ponto de começar a cantar a minha música preferida.
Um rock vibrante que me deixa aos pulos de felicidade, cantando em coro com
milhares de outras pessoas, uma harmonia perfeita de gosto musical e fãs
dedicados. Está quase, e aos primeiros acordes é a loucura, todos estamos a
vibrar de uma maneira para além do racional. Começamos aos saltos e sente-se
electricidade no ar, cantam em coro: “you always had been mine, but your mind
was kidding your heart... lá lá lá” que momento perfeito. Aos saltos com muitas
centenas de amigos recém-feitos bambaleamos para a frente e para trás num mar
de corpos quentes, suados e começam a agitar-se cada vez mais rápido. Tão
rápido que perco o controlo dos meus pés que deixam de tocar o chão e a alegria
começa a tornar-se preocupação. Mais um e outro acorde e aquela massa de sacos
de carne parece ter-se tornado uma bigorna gigante que me golpeia. Já não me
divirto e começo a temer pela minha segurança quão assustadora se tornou a
multidão. Sem controlo no meu corpo, que resvala e se torce ao sabor de braços,
pernas e troncos de outras que chocam contra o meu, não existe forma de me
mover ou escapar, a minha única preocupação é manter o equilíbrio para não cair
e evitar ser pisado. E continua o som ensurdecedor “You were joking around but
now your life is mineeeee” Os corpos contorcem-se e sem poder fugir, deixo de
lutar.
***
Um rock vibrante que me deixa aos pulos de felicidade, a
música inunda-me os poros e transpiro emoção. Deixam-me efusivo as notas,
sinto-me flutuar acima das notas. Quero apenas relaxar ao som do meu rock &
roll. Raios de luz entram por todo o lado para colorir a minha canção. Não. Não
são capazes de colorir nada. Tento, eu tento, mas não consigo desconectar
daquele som irritante daquele pé a brincar com o estrado debaixo da mesa. Nem
para compasso serve de tão descoordenado. Mandou-me outro email sarcástico
insinuando a minha destreza mental parecer-se com um equídeo a cavalgar num
pântano. Ou algo parecido. Eu não tenho paciência para isto e num impulso
levanto-me e rasgo estas palavras na sua direcção: - o que é que queres dizer
com isto? - Responde ele no seu tom sonso torpe: - Isto o quê? Eu penso em 35
milionésimos de segundo “isto o quê?” - ó meu bardamerdas mas estás a gozar
comigo? - chamaste-me o quê? Isto é incrível, a maneira gratuita como ofende as
pessoas! Não sabe fazer o trabalho dele, aquilo que faz está mal feito e ainda
por cima dedica-se a ofender as pessoas, por inveja.
Meu grande nabo da... - e neste momento um colega puxa-me
para o lado e leva-me para a parede depois da esquina do escritório, refugiado
pela planta que parece uma pequena palmeira verde: - Zeca, fizeste o que ele
queria, não sei o que agora que te pode acontecer. - Mas sei eu, repliquei. E
numa corrida cega passei por trás daquele torpe e lhe apliquei o melhor carolo
de sempre. Imutável e mudo, saí do escritório contente pela pequena vingança
mas derrotado na minha honra agora em saldo.
***
Mandou-me outro email sarcástico insinuando a minha
destreza mental parecer-se com um equídeo a cavalgar num pântano. Ou algo
parecido. Se fosse canibal teria o prazer de degustar agora mesmo um carpaccio
da sua língua, mas não pactuo com torpes, nem para proveito próprio. Sem muito
esforço, respondo: não se preocupe com o meu cavalo porque enquanto lê este
correio posso com inusitada segurança afirmar que serei capaz de lhe ensinar (a
si também se quiser) natação sincronizada nesse pantanoso chavascal onde
gostaria de filosofar comigo. Já em perda da razao responde em letras vermelhas,
talvez corpo 52 de Times New Roman “... vá você”. Como nunca fui de dar por
perdido um bilhete para uma boa viagem apenas escrevo: “só se prometer que não
fica aqui sozinho a empanturrar-se de bolotas”. Vermelho de raiva saiu porta
fora, enquanto eu ainda hoje dou uma gargalhada de como não fui despedido
naquela tarde.
Quinta-feira, 1 de Março de 2012
t'estimo!
De volta ao campo para comemorar o meu aniversário, num
hotel aldeão com direito a uma aparatosa lareira à espera do inverno e uma cama
realmente grande. A chegada foi a um sítio diferente, onde o chão é forrado a
pedra que se erige em paredes de dois e três andares, decorado com plantas
floridas que se despedem do tempo quente. Encho o peito de ar seco, em passos
longos pelo caminho que estas pedras traçaram e de mão dada os meus dedos tocam
os dedos finos da minha companheira. Partilhamos sorrisos cúmplices do muito
que vivemos e falamos dos mundos que fundimos em abraços. As almas são emoções
engarrafadas que esperam pelo saca-rolhas encantado para despertar todas as
intenções escondidas. Aqueles dedos finos pedem agora para me sentar e ler um
pequeno livro creme, que tem na capa um coração e a inscrição “Amo-te” em
catalão, t'estimo. As letras pequenas parece que dão pouca importância ao
evento e à magia que esconde. Abro-o e leio com agitação as linhas que se
desenham nos meus olhos. Falar de emoções não é um exercício fácil, nem óbvio.
Em poucas páginas fico refém das emoções
extrapoladas por aquele manuscrito delicioso. Tenho que fechar o livro porque o
mar salga-me os olhos. A criança indefesa que tomou conta de mim parece ser um
desenho manga com olhos gigantes que tremem e procuram refúgio na minha mão
fantasiada de concha. O meu coração é uma fortaleza, habitada por mim e uma
princesa de pele branca que eu mancho de desejo. Com um beijo declaramos
tréguas e com os dedos entrelaçados selamos a ternura do nosso encontro. Agora
com passos de música volto a desejar o cheiro dela nos meus lençóis.
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Receita: miolos com dobrada
No
meio da rua via a entrada da universidade e com os meus raios xis já
dissecava a universidade inteira, como gostava, para ter tudo controlado
e baixo o meu domínio. Depois de vários meses agarrado a livros, a
analisar conceitos, a preparar provas, a cozinhar teorias, a espantar
dúvidas, creio que estou pronto. Tenho verdadeira segurança na fortaleza
de conhecimento que erigi para conquistar a nova etapa da minha vida.
Em passos lentos, que tenho tempo para chegar, cruzo o muro que me
separa do senso comum. Chego antes de todos, o professor inclusive, e
espero sentado na primeira fila de costas direitas, mais que o próprio
encosto. Falta pouco para que pouse na minha carteira aquele pedaço de papel
flutuante com interrogações. Na parte esquerda do tampo creme,
perpendiculares à minha posição, ficam as duas esferográficas de bico
fino, cerca de 0.3 mm, uma azul e uma preta, conforme as questões se me
insinuem. Gosto delas assim finas porque cabem mais letras minhas em
cada linha da folha de exame. Como não posso trazer estojo, conforme as
regras da escola, do lado direito e paralela à posição do meu braço
esquerdo, que fica em repouso quando escrevo, um lápis de carvão número
dois com uma pequena borracha avermelhada na ponta e uma folha branca
para elaborar as minhas conjecturas hipotéticas. Estou pronto. Olho para
o relógio, faltam 17 minutos. Mas tenho a certeza que o meu nome já
está a ser escrito com duas dezenas na pauta. Tudo o resto é
irrelevante.
-- ø --
Tenho
uma amêndoa metida no olho. Literalmente. Pressiono o olho para dentro
com um destes frutos que foi apanhado há pouco mais de um mês. Há pouco que fazer durante o tempo que estou trancado nesta sala de
aula. Na cadeira de trás tenho a minha namorada, a Luísa, que quer
seguir o mesmo curso que eu, Electromecânica de Equipamento Médico
Dentário, e verdade seja dita, acho que foi ela que escolheu este curso
por mim. Apaixonou-se por moldes de gesso, comoveu-se ao pensar em
reconstruir um sorriso feliz às pessoas. E branco. Fala-me com
entusiasmo que à parte de tudo o mais é uma profissão com muito boas
saídas profissionais e que neste tempo de crise não vai ter de esperar demasiado até começar a trabalhar. Olho de esguelha para trás e lá está ela a
escrever como se a teoria médica dental coubesse toda naquele pedaço de
papel. Eu não estou a escrever, rio-me com a hipótese de ser uma
obturação naquele labor fabuloso que ela idealiza. Quando levanto a
cabeça vejo um rapaz na primeira fila, um pouco à minha direita, que
também escreve freneticamente, um caixa de óculos que quando chegámos
estava a berrar com uma miúda que tinha tocado na sua mesa e deixado
cair um lápis ao chão. Um lápis, quem é que ainda anda com aquelas
coisas no dia a dia? Provavelmente ainda pinta desenhos, uma
criança grande com toda a certeza. Do outro lado, a janela, e lá fora
toda a liberdade numa brisa de verão. E eu em clausura aqui dentro
alumiado por umas lâmpadas fluorescentes.
Enquanto divago pelos sete
pecados mortais, dois toques nas minhas costas – é o sinal. Pego na
minha folha meio rabiscada, que deixo cair ao chão e troco-a num gesto
mágico com doze anos de prática por uma outra com toda a minha sabedoria
actual sobre este tema. Tudo o que eu pensava que não sabia está ali. E
se vir bem até a letra parece a minha. Tudo o que eu quero ser está
ali, uma cópia perfeita do meu pensamento.
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