sábado, 13 de novembro de 2010

Climax

Continuam a correr-lhe pela cara abaixo pingos grossos de suor que se confundem com lágrimas de desespero. De tanto inspirar não consegue expirar, ou não consegue respirar mais:  - dói-me o peito – grunhe – , sente uma dor aguda no centro do peito, de dentro para fora, no centro do seu corpo que não afrouxa, parece colar-se o fundo da língua à maçã de Adão. Está fechado no lavabo, sentado sobre o tampo da sanita e sem coragem de se rever ao espelho.  - Eu vi – pensa – tenho algo a crescer na minha cara, a deformar-me o rosto, já não é aquela bolhinha inofensiva que notei em casa. Estou a tornar-me um monstro, não entendo, não compreendo e não consigo voltar a ver-me. Sente a cara a inchar, e as mãos suam, demasiado, e ao tocar o rosto não distingue já nenhum traço, nada. Pensa na mulher e nos companheiros. Se alguma vez sair daquela latrina, como o olharão? - Já não sou eu – repete vezes sem fim – , e não tenho coragem de abrir esta porta para fugir daqui. Silêncio. Tenho de calar estas vozes que ouço de dentro. Um espasmo de vómito fá-lo engasgar-se com o muco que corre pela garganta e que lhe sai pelo nariz. Não vai a tempo de abrir o tampo e sai-lhe um líquido verde pastoso disparado em frente sujando ainda mais a camisa manchada de suor. Chora. Pega num bocado de papel para se assoar enquanto escarra. Decidido, é agora que vai abrir a porta. Está silêncio, não há ninguém, tenta fugir anónimo. Abre a porta, espreita e avança. Dá passos apressados em direcção ao espelho que está ao fundo, de lado, para encarar a sua condição. As pernas ficam mais pesadas e a cabeça parece explodir numa dor imensa quando lhe sai pela boca um rugido que ecoa por todo o espaço.

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