quarta-feira, 10 de novembro de 2010

“Desnudo nací, desnudo me hallo; ni pierdo ni gano”

“Tanto me da vivir en un palacio como en una aldea. Todo lo que soy lo llevo conmigo. Por lo visto, conservo un fondo casticísimo, de indiferencia estoica, y me digo como Sancho: desnudo nací, desnudo me hallo; ni pierdo ni gano”.
Manuel Azaña, presidente da República espanhola

Quando abri as páginas do jornal de hoje, deparei-me com mais uma notícia que remete para a Guerra Civil espanhola, que chamou às armas entre 1936 e 1939, nacionalistas e republicanos. Ao contrário do que aconteceu em Portugal, em Espanha a repressão dos nacionalistas vencedores liderados pelo ditador Francisco Franco levou às execuções em massa e ao enterro dos mortos em fossas comuns. Esta cegueira ideológica e assassina levou a que fosse fuzilado Lluis Companys no castelo de Monjuic, em Barcelona, Presidente da Generalitat da Catalunha, o governo autónomo catalão. Caso único na Europa, um presidente democraticamente eleito ser capturado no exílio por tropas estrangeiras, entregue a uma ditadura, num julgamento sumário condená-lo à morte e, em seguida, fuzilá-lo. E nos dias de hoje ainda não foi anulado este julgamento fraudulento.
O jornal não falava do contexto histórico, mas sim de uma página web do Memorial Democrático onde estão referenciadas a maioria das fossas comuns conhecidas, que são muitas, e a quantidade de soldados e civis mortos nelas enterrados. Muitas centenas de outras estão ainda por descobrir e dignificar, muitos restos mortais estão ainda por entregar às respectivas famílias (estimam-se 152 mil desaparecidos), num trabalho árduo que tem sido levado a cabo pelas autoridades com a ajuda de alguns municípios. Digo alguns, porque onde lidera o Partido Popular (PP), se recusam a fazê-lo, algo que só sublinha a sua raiz ideológica e a consideração pelos valores democráticos. O último episódio mediático foi o do juiz Baltazar Garzón, que ao investigar estes e outros crimes acabou “exilado” em Haia, no Tribunal Penal Internacional. A política, no estado espanhol, não é fácil e é tudo menos simples.
Acaba por parecer-me estranho que sendo a única fronteira que temos se desconheça tanto, talvez por isso, e em vez de nuestros hermanos, se prefira achá-los nossos primos... em terceiro grau, com um saco de caramelos na mão.

Fontes:
 - Jornal Público [PT], 08/11/2010
 - Jornal Público [ES], 15/10/2010

2 comentários:

  1. Epá, não é que o homem escreve!

    Parabéns! quando tiver mais tempo espreito melhor as tuas escritas;)

    Beijoca

    ResponderEliminar
  2. O ser humano comete erros tremendos e raramente os quer encarar e conhecer, por isso tanto se repetem... beijos.

    ResponderEliminar

Licença Creative Commons
Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 2.5 Portugal.