sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um imenso rebanho

O Projecto Farol levou a cabo um estudo e eu cheguei a uma conclusão: o Portugal que foi objecto destas 1002 entrevistas que serviram de amostra, é um imenso rebanho de ovelhinhas. Ou qualquer outro tipo de vertebrado que goste de ser apascentado. Acrescentar que não foram registadas respostas das regiões autónomas (Açores e Madeira). Num estudo sobre o Portugal global voltaram a esquecer-se das ilhas.


Para os inquiridos, o presente é muito pior que a vida há quarenta anos, antes do 25 de Abril de 1974, mas também está pior que a vida desde antes de entrar na CEE. Mas não é só o hoje que está pior do que o ontem. O futuro, dentro de 10 anos, também será muito pior do que agora. 
Primeira conclusão: queriam ter nascido num século diferente. Muito chora esta gente.

Principais problemas para a miserável situação: desemprego, sistema de saúde, endividamento das famílias, pobreza e exclusão social, a falta de um plano de sustentabilidade económica.
Educação, justiça ou modelo social são um mal menor, migalhas (que falta farão as bases de uma sociedade, não é? - sim, estou a ser irónico).

Em relação à insegurança, apenas um ponto: Portugal é o segundo país da União Europeia com o rácio mais elevado de polícias por cada mil habitantes. Em 2009 existiam para cada mil habitantes dois agentes da PSP e outros dois guardas da GNR. É certo que não andam todos a patrulhar a rua, é até certo que não estão todos de serviço em Portugal, mas sim destacados em missões no estrangeiro, mas relembro, que é o segundo maior número de polícias por habitantes de toda a Europa, o que frisa que se trata de um problema de ineficiência por parte da estrutura das forças policiais e de desinformação por parte dos habitantes. 

Outro ponto interessante, à pergunta "Para ter melhores condições de vida, maior capacidade económica, estou disposto a arriscar num negócio próprio, mesmo que isso represente um risco por não ter total garantia", 54% dos inquiridos discorda, ou seja, para melhorar as condições de vida não estão dispostos a serem empreendedores. De uma maneira simples, critiquem-me se quiserem por ser demasiado simplista, diria que querem ver as suas condições de vida melhoradas desde que não sejam suas as mãos que têm de ir ao trabalho - "está bem, vai tu primeiro que eu já lá vou ter".


Chego a mais uma parte interessante do estudo. “Para si, quais são os principais responsáveis pela redução ou prevenção da pobreza?”. E a resposta maioritária: o Governo (86%). Exactamente aquela entidade da qual todos desconfiam (90% não confia no Governo e 94% não confia nos políticos), mas não há problema, ela há-de saber o que fazer. E depois a União Europeia (34%). Os cidadãos e a sociedade civil aparecem em terceiro (29%) e quarto lugar (24%). É compreensível, se as mãos não são boas para trabalhar por conta própria, também não servem para reivindicar os seus direitos ou ajudar os outros.

Frases que mais se adequam à sociedade em que gostavam de viver: "Se poderem realizar a si próprias" (quarta posição em nove possíveis); "Serem auto-confiantes, terem sentido crítico" (sexta posição em nove); "Serem empreendedoras e que arriscam" (sétima posição em nove). 
Interessante que a resposta "Cumprirem regras" ganha um terceiro lugar. Provavelmente, e isto sou eu a especular, cumprir uma regra de um estado no qual não confiam. Perfeito. 

Creio que não muda a coisa com a idade dos políticos, porque neste momento ambos são jovens e ascenderam, Sócrates (PS) e Passos Coelho (PSD), a partir das respectivas juventudes partidárias. Realçar que, de verdade, nenhum dos dois tem uma sólida experiência de trabalho numa área académica, mas apenas experiência de militância política. São dois boys retóricos, afinal.


Enfim.
No fundo, até parece que "antigamente é que era bom", "antigamente é que fazíamos história", "voltar ao passado" resolvia tudo, "hoje já não se pode fazer nada", "está tudo perdido, vamos todos chorar de mãos dadas numa corrente pela auto-comiseração". O problema passa pela confiança e pela auto-estima. E pelas bases que precisam de ser refundadas, e nada como uma boa época de crise profunda como a que se está a passar para fazê-lo: mudar o sistema. Nisto sim, podemos basear-nos na história para acreditar que se pode mudar e melhorar o futuro. Faz falta uma terapia de choque. Se não é sustentável, se não é eficaz, se não existe a proporção correcta entre homens e mulheres nas rédeas das decisões, não basta baralhar e voltar a distribuir as cartas. Faz falta mais que mudar de baralho, mudar de jogo.


Já há algum tempo me tinham confidenciado da passividade de muitos portugueses. Numa visita a uma grande superfície para algumas compras a empregada da caixa, ao pagar a conta, perguntava se se queria assinar uma petição para os hipermercados abrirem ao domingo.  E foi confrontada como uma resposta inteligente: "Mas a senhora quer isso? De verdade que quer vir trabalhar ao domingo?", ao que ela encolhe os ombros, resignada. O patrão manda, a empregada faz, fim de conversa.



Fontes: Deloitte, Projecto Farol (PDF genérico, PDF da sondagem), Pordata (base de dados de Portugal contemporâneo).

1 comentário:

  1. Bem visto!
    Gostei dos boys retóricos... lol e sobre essa petição de trabalhar ao domingo, ficaram muito escandalizados porque eu não a assinei, o engraçado é que eram as próprias empregadas/os que a davam a assinar... SEm espírito crítico ou porque manda quem pode...

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