segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dans le noir?

No domingo, jantei num restaurante que nos remete para uma dimensão diferente de tudo a que estamos habituados neste ramo. Quando fomos já sabíamos do que se tratava, mas ainda assim estivemos na expectativa. Ao chegar, somos recebidos por uma senhora que pausadamente nos explica a temática do restaurante, a maneira de funcionamento, em parte, o que podemos esperar. Apesar de ser uma surpresa, não se querem surpresas, principalmente as desagradáveis, que tão mal cairiam nesta experiência humana e sensorial. Depois de tudo muito bem explicado, apresentam-nos a nossa camarera (empregada de mesa), Pilar. É uma rapariga nova, atenta e muito bem disposta. E é cega. Entramos na sala de jantar propriamente dita em grupos de oito pessoas, separados da nossa companhia, em fila, com a Pilar à frente. É ela que nos guia e a sua voz passou a ser a nossa referência. Agora que tudo está escuro, muito escuro, como o breu, é ela a única que sabe com segurança, dar os passos certos. Um certo receio invade-nos, não estamos à vontade, sentimo-nos inseguros. Chegamos à nossa mesa, que só ela sabe qual é, e com paciência, senta-nos um a um no nosso lugar. E de frente para nossa pareja. Perfeito! Agora que me sento, procuro o conforto das mãos dela para me certificar que estamos bem. E até agora, a única prova foi chegar à mesa de jantar.

Ao nosso lado, os outros comensais congratulam-se do mesmo. Começa a constituir-se um espírito colectivo. Ouvimos então um carrinho a chegar, tilintando, e Pilar coloca-nos o primeiro prato à frente. Obviamente não o conseguimos ver, e portanto tento aguçar ao máximo o olfacto. Cheira bem, muito bem, mas consigo distinguir apenas que existirá peixe ali no meio. Tenho os talheres em ambas as mãos, o guardanapo de pano sobre o joelho direito e coloquei o copo de vinho no extremo da mesa, junto a uma parede, induzindo-me a sensação de que ali jamais cairá. Estou pronto para a primeira garfada. Afundo o garfo sobre o prato como se de um falcão treinado se tratasse, e levo-o à boca. Aparentemente apanhei apenas uma folha de rúcula. Volto a tentar, mais decidido, desta vez apanho agrião. E pouco. Mudo para o que penso ser outra parte afastada da zona que estava a atacar, e pelo que me parece ser a forma é algo diferente, sem ser salada, mas um pouco escorregadio. A faca, em conjunto com o garfo, sem os conseguir ver, parecem um dueto desafinado. Não acertam uma. De repente o falcão já não é falcão, é um ratinho que corre atrás de todos os grãos que conseguir encontrar. Ninguém me está a ver. Desisto da faca e começo a utilizar os dedos. Se toda uma civilização ocidental se conseguiu fundar sem a ajuda de tantos talheres, eu também posso dar um desconto. Nem que seja por uma noite. Abandono garfo e faca ao seu destino e passo a comer com as mãos. Penso para comigo, "isto agora é que é falar". Finalmente começo a alimentar-me com substância. Além dos vegetais crus e da lula às rodelas, consigo distinguir gírgolas, uns deliciosos cogumelos.

Tudo parece ser um prazer inesperado. Porque como me explicariam mais tarde, quando vemos no prato uma comida que já conhecemos, o nosso cérebro, por antecipação, já nos está a dar informação do gosto que vai ter. O vinho, um pouco fresco e jovem, parece-me um rosé. À minha frente, a minha companheira confidencia-me tinto. No final saberei que afinal ela é que tinha razão. Continuo a comer e não encontro nada que me desagrade o paladar, mas a verdade é que também não faço a ideia do que estou a comer. Não tenho medo, porque já nos tinham descansado: "não servimos coisas esquisitas". Vamos partilhando opiniões com os ocupantes das cadeiras ao lado, e vai-se manifestando uma cumplicidade, em busca de sabores e encontro de opiniões. Pilar continua a servir-nos, e continuamos a explorar o nosso paladar. Também começamos a reparar que este partilhar de ideias se está a fazer sentir, cada vez mais, como uma gritaria. Ao não vermos as pessoas com quem falamos, inconscientemente, aumentamos a intensidade da voz, buscando a certeza de que estamos a ser ouvidos. Por várias vezes nos pedem para baixarmos o volume. Já sabíamos que podia acontecer e não levamos a mal. Com o segundo prato, o segundo vinho. Este, sem dúvida, um tinto, com todos aqueles aromas que vêm da barrica, todo aquele corpo. Muito bom. No final, uma sobremesa. Distingo imediatamente o sorvete de morango com bolacha crocante.

Tudo tem um final, e a tranquila Pilar volta a meter-nos todos em fila e a guiar-nos para fora da sala de jantar, de volta à luz, de volta ao conhecimento como estamos habituados a percepcioná-lo. Fantástico! Cá fora, com um café ou um chá à nossa espera, explicam-nos como muitas vezes é fácil enganar os sentidos, e os detalhes sobre tudo o que comemos e bebemos.

Uma experiência sensorial e humana, de uma humildade maravilhosa.






Página do restaurante acessível aqui:
http://www.danslenoir.com/catalan/index.php

1 comentário:

  1. Tinham-me escapado estes posts mais recentes... parece muito saborosa a comida, mas a experiência arrepia-me um bocadinho...lol

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