domingo, 11 de setembro de 2011

Onde estavas tu?

Um barulho estranho, sequencial, jorra-me para os ouvidos com estalos metálicos que me arrepiam a espinha. Estou sentado na minha confortável cadeira, reclinado, numa posição relaxante e deixa-me intrigado. Provavelmente algum dos meus vizinhos. Envio o som para um lugar distante na segunda fila do meu cérebro, onde ensaia com a orquestra desafinada de todos os ruídos da rua, do poço do prédio e do chinfrim dos móveis quando se movem. De repente o volume daquele ruído sobe de tom, um si que martela como uma cama velha a ser amada por dois jovens com as hormonas aos saltos. E sobe a escala e já parece o frenesim de um filme de terror, uma máquina assassina. Só pode ser uma máquina naquele misto de válvulas que fazem saltar plataformas com um barulho seco a comprimir algo, e foles que incham ou sugam num inferno a martelar ou pior, a serrar, mas já com as juntas velhas que chiam de tanto roçar entre sim, nao comportando a idade tamanho esforço, tão intenso. Assusto-me, quem será capaz de tanta malvadez, afinal o que se passa aqui? Que significa isto? Que classe de vizinhos tenho eu? Sigo, como posso, o ruído, que ao descer o corredor se torna mais forte. Encaminho-me para a porta da rua, e a orquestra desafinado toca mais forte que nunca. Mas ao abrir a porta, nada, não sou acossado pelo brutal rasto de som. Dou meia volta para regressar ao ponto de partida, contrariado pela minha teoria e descubro que tenho o monstro em casa. Ataca-me de frente, ao abrir a porta daquela divisão, ouço distintamente aquelas garras de ferro a roçarem ritmicamente no alumínio e a arrepiar-me em dor. Desvelado o mistério que não me matou. Ganhei um inimigo estridente. Tenho medo da minha máquina nova de lavar a roupa.

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