domingo, 23 de outubro de 2011

"Há muito por fazer, agora não nos podemos relaxar"


Excerto da entrevista de Carles Capdevila, director do jornal catalão, a Juan Karlos Izaguirre, médico e presidente da Câmara Municipal de San Sebastián, publicada hoje no "Ara".



"Euskadi celebra a paz", manchete do diário

Foi uma semana muito intensa. E agora?

Houve um passo importante, mas não entendo uma certa euforia que mais parece já se ter conseguido a paz, quando ainda falta fazer muito e a cidadania não se pode relaxar. Faltam passos de mais gente que ainda não fez nada. A Conferência [de Paz em San Sebastián] foi muito importante. Dos cinco pontos, a ETA tratou de atingir o primeiro com rapidez. Faltam trabalhar quatro pontos. Os governos espanhóis e francês têm de abrir em seguida um debate político, que garanta o respeito por todos os direitos individuais e colectivos.

Antes do 20-N [eleições legislativas no estado espanhol] acontecerão mais coisas?

 Têm de se observar gestos num breve trecho, como legalizar [o partido político] Sortu, diminuir a repressão, libertar presos com doenças graves. Otegi [político do partido Batasuna] e outras pessoas que estão na prisão por fazer política, têm de ser libertadas imediatamente. Há quinze rapazes de Donosti [S. Sebastián em basco] que se prevê serem encarcerados por terem feito política: não deveriam.

Veremos a dissolução da ETA brevemente?

Não sei como se encenará o final, nem sei se é o mais importante. A chave da situação é que não existe marcha atrás possível. O obstáculo é o Estado que não dá o passo seguinte. Se o fizesse, avançaríamos muito rápido. É curioso que internacionalmente se reconheçam os passos que temos dado, mas não o Estado. O nosso mapa é o Acordo de Guernika [pacto para a paz assinado em 2010 por 28 entidades bascas, entre elas cinco forças políticas] que marca o caminho para a pacificação e tem como primeira fase um cenário sem qualquer tipo de violência. A Esquerra Abertzale [esquerda nacionalista e independentista] já o fez, o Estado ainda não, mantendo a repressão e a ilegalização, mas como a nossa decisão é unilateral, continuaremos sempre a avançar nessa direcção.

(...)

Que pensa dos indignados?

Se não existissem tinham de ser inventados, porque temos muitos motivos para se estar indignado. Eu ia a assembleias [populares] e via que muitas das coisas que diziam eram também motivos de luta do Bildu [partido político basco]. Coisas básicas como diminuir o consumismo, mais democracia, melhor partilha dos bens, mais políticas de esquerda... O Primeiro Mundo foi-se construindo mal e teve como ponto de partida um capitalismo muito duro. Em Espanha as pessoas estão decepcionadas com o bipartidismo e com o facto do PSOE [Partido Socialista Espanhol] não ter tido uma política de esquerda. Toda a gente vê que nas prisões existem condenados por pequenos delitos ou por delitos sexuais e também presos políticos, mas os que roubam de verdade esses não estão lá.

Vive em euskera [língua basca]?

A minha mãe é asturiana [zona das Astúrias] e eu fui criado em ambiente bilingue, mas falo euskera em casa, na Câmara, e dantes, nas consultas médicas.Mas ainda custa às pessoas entenderem que além de falar basco no café, este também serve para fazer política, medicina ou construir pontes.

É da Real [Sociedad, clube de S. Sebastián]?

Sim, apesar de que me dá mais alegrias ver o Messi e este Barça de Guardiola a jogar do que a minha Real. Por isso desejo que a Real ganhe a Liga mas que o Barça fique em segundo.


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