segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ontem foi a última noite?

Cada vez que olho nos olhos dela sinto-me mergulhar num oceano de prazer, de águas quentes, tropicais, de ternura. Uma sensação maravilhosa, o meu coração abre-se e sai pelo peito em busca do sol. E estava abraçado a ela como duas raízes eternas quando senti aquele estouro na porta. Assustado, fiquei primeiro sem saber se era aqui, em minha casa, se numa outra ao lado ou talvez alguns desordeiros na rua. Novo estrondo, tão intenso como o anterior e sinto passos apressados de um, dois, parece ser uma multidão em movimento. O meu Amor grita em pânico, mas nem um segundo passou e quando me levanto para saltar da cama nem ouso respirar porque já tenho um cano de uma espingarda, a menos de um metro da minha testa. Assustado, estou imóvel e da minha companheira vejo apenas um olho escondido entre as ondas dos lençóis enrugados.

Olho, mas vejo tudo desfocado, parece que estou dentro de uma daquelas fotografias hiper-realistas em que tudo são cores exageradamente fortes, exasperadamente berrantes.
De entre os homens fardados que tenho à minha frente, como se fossem para uma guerra, de capacetes escuros que escondem as feições, sai um outro, exemplarmente vestido com um delgado bloco A4 numa das mãos, que se aproxima de mim, e sem cerimónias me cospe estas palavras: "Boa noite senhores cidadãos!". Eu atrapalhado, mas sem querer ser descortês respondo um apagado "Boa noite!". Do fundo dos lençóis, nada.
O homem bem vestido continua: "Considerem-se os senhores multados por excesso de amor." Atónito apenas consigo titubear um "Como?"

- Isso mesmo que o senhor ouviu. Constitui o vosso acto contínuo uma contra-ordenação grave, prevista na nossa lei: excesso de amor. Andarem a tocar-se e beijar-se como se fossem dois caracóis babosos, com sorrisos dignos de um primata irracional, que não percebem onde acaba o respeito e começa a palhaçada, o despeito, a sem-vergonha de palpar as partes pudendas em busca de prazer, quando o único prazer deve ser a alegria de multiplicar a nossa raça sem mais paralisias emocionais.

 - Mas se estávamos aqui recatados apenas agarrados um ao outro sem nenhuma outra intenção! - respondi a soluçar, num momento em que já não sabia ao certo o que fazer.

 - Os senhores são deprimentes quer na vossa cópula carnal quer na vossa depressiva dependência emocional, em que se rebaixam na busca da aprovação um do outro como dois canídeos de língua de fora sem qualquer sentido de decência, optando por viver num mundo alternativo de cores berrantes e sensações. São a face visível de uma emoção pútrida que se alimenta de pensamentos alheios, e cultiva a sujeição como glória. Metem-me nojo - berrava - não são humanos, na vossa depravação e imundície enternecida, são meros acessórios vertebrados da nossa sociedade, sem qualquer autonomia nem utilidade. Sofrem de um pretensiosismo idílico, de soberba e inveja têm o corpo cheio, roubando à sociedade - que vos veste e alimenta! - dizia, quase explodindo em mil perdigotos - nessas fantasias absurdas, braços que trabalhariam sem se cansar... nem pensar. E vão ter o que merecem: a decisão imediata do meu julgamento sumário.

Tão incrédulo estava que nem uma palavra sai da minha boca, apenas ouço um zumbido intenso nos meus ouvidos e sinto a cama que treme. Mão na mão, nada mais que silêncio. O coração a 300 galopa para o inferno.
Outro estouro, mais forte que todos os outros, e alvoraçado ergo-me encharcado e em pânico. O meu Amor agarra-me, abraça-me e pergunta na sua doce e quietada voz: Tiveste outro pesadelo?

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