quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Açúcar de chumbo

Por momentos imagino que estou num grande pacote de açúcar, daquele que chamam de
glacée, porque não existem palavras suficientes em português para dizer em pó, mas quando
caio ao chão não me sabe a nada, desfaz-se em água gelada nos meus lábios roxos, sem
realmente me apagar a sede da boca. Levanto-me outra vez e continuo a subir aquela colina
fria e branca de neve, enterrando as botas e tentando manter o equilíbrio. Vou em esforço e
quase que já perdi o rasto aos restantes companheiros de caminhada, que me ultrapassaram
ágeis sem se preocuparem muito se podia ou não conseguir acompanhá-los. Não estou
demasiado agasalhado, porque apesar do frio, o esforço brinda-me com suor e cada vez que
páro por mais de dois ou três minutos sinto-me a mergulhar numa piscina fria que faz tremer.
Então não paro, ou tento, quando paro, fazê-lo o mínimo possível, mas cada passo que dou
para contrariar aquele plano inclinado, cada vez que desenterro a bota num passo mais, sinto-
a a libertar-se da neve para se encher de chumbo e cada vez me custa mais o movimento.

Volto a parar, a olhar para em cima, em busca de algum rosto, mas já não alcanço ninguém, e
cada vez estou mais cansado. Estou entre um “é já aqui”, e outro “ali depois da curva”, mas se
estou na montanha que a bem ou a mal afinal é um cone, tudo são curvas se se quer atacar a
montanha com possibilidade de chegar lá a cima. Mas eu não chego a lado nenhum, porque
não me consigo mexer mais, este pântano branco de frio vai acabar por engolir-me. Tento
correr uns metros para pensar que realmente consigo avançar alguma coisa, mas as minhas
pernas são dois paus espetados na neve e eu sou um boneco que não vai cumprir a sua missão
estática. Enfurecido dou um grito que me sai da alma. Decidido, dou um passo, mais outro e
consigo voltar a aprender a andar naquele meio hostil. Não posso levantar o olhar, para pensar
que o próximo passo é sempre o último. E num processo mecanizado de repetição, faço-o
porque é o último recurso para nao jazer vencido. Caminho a custo quando começo a sentir o
vento cada vez mais forte, na cara e no peito e faz-se difícil respirar. Levanto a cabeça e está
ali o cume, não há mais para além daquela pequena planície que coroa de serenidade o meu
esforço. Num sonho de beleza imensa quase esqueço a vitória, que é doce e cheira a suor. E é
minha.

1 comentário:

  1. Gosto mesmo muito do teu estilo... Sentia mesmo esse frio!!! Bom domingo!

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