quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A colher salvadora


Estou muito contente com o dia de hoje. Vou viajar de avião. Tenho as malas prontas de ontem, tudo arrumadinho com o máximo aprumo. Mais ainda e tinha feito a mala por tons, com um degradé que se adensava ao olhar para o fundo dela. Mas não, não sou assim tão picuinhas. Rebolo para um lado e para o outro da cama, enrolo-me no lençol, torno-me um croquete de cobertores naquela cama vazia. Ainda tenho tempo, está tudo controlado e eu muito relaxado. A Matilde foi para o cabeleireiro com tempo. Acho estranho como decidiu fazê-lo antes da viagem, mas decidi nem levantar ondas porque normalmente tem tudo controlado. Sou um gato esparregado na cama que se espalha como uma mancha pelos lençóis até chegar ao relógio de ponteiros para ver as horas, aproximo-o e vejo que são... as nove e qualquer coisa... Esfrego os olhos para afugentar a remela e consigo ver o empertigado ponteiro grande a apontar para os cinquenta e... como? Cinquenta e sete? O relógio está parado? Começo a sentir um formigueiro a colonizar as minhas costas ali na zona das omoplatas que é o sítio mais difícil para me coçar, temendo por perder a primeira das sete vidas ali tao rápido. Salto ágil da cama para tomar um banho tão rápido que parece que saí debaixo do chuveiro antes da água me alcançar. O meu braço autómato em trabalho independente já telefona à Matilde enquanto as pernas correm sem acusarem o peso da mala. O carro não está perto, mas uma pequena corrida evita um mal maior. A parte divertida de estar com pressa é que parece que nos dá o direito de actuar como loucos porque temos um passe imaginário que nos dá direito a fazer tudo. Tudo, tudinho. E quem não sair da frente corre o risco de eventualmente poder ser atropelado, ou  de se lhe ver aplicado uma paralítica emocional, na pior das hipóteses paro o carro e dou uma cabeçada verbal que fica a ver interjeições ao quadrado. Fazendo o gosto ao pé, avanço célere por ruas e avenidas enquanto tento acertar na localização certa da minha namorada. Eu não a posso obrigar a ser uma mulher-estátua, mas neste momento de aflição para cada passo que pressinto dela necessito de um mapa. Chamada atrás de chamada, estou aqui, estou ali, ao pé da árvore, ao pé do lampião, ao pé da rua que não posso virar porque é sentido proibido e se depender de quem decidiu as ruas desta cidade vou ficar até amanhã como o hamster da minha vizinha a dar voltas. Boa, é ela! – Matilde! – grito, e a verdade é que parece tão agitada como eu, mas com o seu look novo e penteado tão acertadinho tem o medo compreensível que alguma parte se desconjunte. Entra no carro, fecha porta e agarra-te bem que temos pouco mais de uma hora para chegar ao aeroporto. Devoro a estrada ao som do motor e nem consigo perceber nada do que ela me diz com tanto barulho. Até que ela me grita e para não correr o risco de não ser ouvido também, atiro um “- o quê?” bastante alto. Responde ela: “-a saída não era ali para apanhar a outra estrada?” . Outra estrada? O caminho não era sempre em frente até dizer aeroporto? O medo é inimigo do meu objectivo, por isso até prova em contrário o meu pé vai continuar a fazer o possível por ter colado o pedal do acelerador ao tapete alcatifado do carro. Até que aparece uma tabuleta com direcções, abrando e nem me surpreende o buuufff que vem do assento ao meu lado. Quarenta e cinco minutos para o avião descolar e eu vou em sentido contrário. Sair no próximo desvio, apanhar a estrada certa, enquanto houver gasolina, há esperança. Demora mais depressa o carro do que a minha imaginação, mas consegui chegar, estacionar, e correr para a porta de embarque, sempre com o meu passe-livre-trânsito-imaginário que me dá toda a superioridade moral para gritar na porta de embarque: - Porquê? Não me deixam entrar, porquê? Não levamos sequer mais bagagem do que esta mochila! O problema é que os transportes aéreos são o transporte civil que conheço mais próximo das regras militares. E não, o único avião que vou apanhar é uma colher voadora com alguma sobremesa para me consolar.

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