sábado, 25 de fevereiro de 2012

Receita: miolos com dobrada

No meio da rua via a entrada da universidade e com os meus raios xis já dissecava a universidade inteira, como gostava, para ter tudo controlado e baixo o meu domínio. Depois de vários meses agarrado a livros, a analisar conceitos, a preparar provas, a cozinhar teorias, a espantar dúvidas, creio que estou pronto. Tenho verdadeira segurança na fortaleza de conhecimento que erigi para conquistar a nova etapa da minha vida. Em passos lentos, que tenho tempo para chegar, cruzo o muro que me separa do senso comum.  Chego antes de todos, o professor inclusive, e espero sentado na primeira fila de costas direitas, mais que o próprio encosto. Falta pouco para que pouse na minha carteira aquele pedaço de papel flutuante com interrogações. Na parte esquerda do tampo creme, perpendiculares à minha posição, ficam as duas esferográficas de bico fino, cerca de 0.3 mm, uma azul e uma preta, conforme as questões se me insinuem. Gosto delas assim finas porque cabem mais letras minhas em cada linha da folha de exame. Como não posso trazer estojo, conforme as regras da escola, do lado direito e paralela à posição do meu braço esquerdo, que fica em repouso quando escrevo, um lápis de carvão número dois com uma pequena borracha avermelhada na ponta e uma folha branca para elaborar as minhas conjecturas hipotéticas. Estou pronto. Olho para o relógio, faltam 17 minutos. Mas tenho a certeza que o meu nome já está a ser escrito com duas dezenas na pauta. Tudo o resto é irrelevante.




                                                        -- ø --

Tenho uma amêndoa metida no olho. Literalmente. Pressiono o olho para dentro com um destes frutos que foi apanhado há pouco mais de um mês. Há pouco que fazer durante o tempo que estou trancado nesta sala de aula. Na cadeira de trás tenho a minha namorada, a Luísa, que quer seguir o mesmo curso que eu, Electromecânica de Equipamento Médico Dentário, e verdade seja dita, acho que foi ela que escolheu este curso por mim. Apaixonou-se por moldes de gesso, comoveu-se ao pensar em reconstruir um sorriso feliz às pessoas. E branco. Fala-me com entusiasmo que à parte de tudo o mais é uma profissão com muito boas saídas profissionais e que neste tempo de crise não vai ter de esperar demasiado até começar a trabalhar. Olho de esguelha para trás e lá está ela a escrever como se a teoria médica dental coubesse toda naquele pedaço de papel. Eu não estou a escrever, rio-me com a hipótese de ser uma obturação naquele labor fabuloso que ela idealiza. Quando levanto a cabeça vejo um rapaz na primeira fila, um pouco à minha direita, que também escreve freneticamente, um caixa de óculos que quando chegámos estava a berrar com uma miúda que tinha tocado na sua mesa e deixado cair um lápis ao chão. Um lápis, quem é que ainda anda com aquelas coisas no dia a dia? Provavelmente ainda pinta desenhos, uma criança grande com toda a certeza. Do outro lado, a janela, e lá fora toda a liberdade numa brisa de verão. E eu em clausura aqui dentro alumiado por umas lâmpadas fluorescentes. 

Enquanto divago pelos sete pecados mortais, dois toques nas minhas costas – é o sinal. Pego na minha folha meio rabiscada, que deixo cair ao chão e troco-a num gesto mágico com doze anos de prática por uma outra com toda a minha sabedoria actual sobre este tema. Tudo o que eu pensava que não sabia está ali. E se vir bem até a letra parece a minha. Tudo o que eu quero ser está ali, uma cópia perfeita do meu pensamento.

1 comentário:

  1. Palavras certas, certeiras, escritas a esferográfica de bico fino, afinado!!! Abraço.

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