quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sonho aluado



Nas escadas da vida existem muitas situações que nos orgulham e que nos fazem sentir bem connosco, outras dizem apenas de nós que somos humanos, e que no fundo também metemos o pé na poça alguma vez. E com a careta que fez a cara engelhada do avô o pequeno Carlos de palmo e meio riu-se. Não percebia muito bem daquilo que ele estava ali a falar com a sua voz pausada e rouca, mas gostava de estar ao seu colo, ouvindo todas aquelas histórias. Ou quando iam passear pelo caminho da serra e ele lhe oferecia uns paus ou umas canas para brincar. Uma cana daquelas servia para alimentar pelos menos meia dúzia de sonhos, mais de uma mão cheia de alegrias. E como não queria deixar de ouvir as estórias do avô, dizia enquanto esbracejava, traquinas: outra! Outra! E merecia outra, merecia sempre, que a condescendência dos mais velhos, quando conseguem alcançar a paz na ternura da idade, parece ser ilimitada. E quase lhe segredava: conheces a história do Martim, aquele rapaz que queria ser um grande médico, para tratar todas as pessoas que não se sentissem bem? - Não, não conheço! E não conhecia o Carlitos o tal Martim, mas mesmo que conhecesse também dizia que não, que era para ouvir a história outra vez. 

 E começava assim a articular o velho dos poucos cabelos brancos: O Martim queria muito ser médico, mas a escola onde podia ir aprender ficava muito longe e ele para ir para lá tinha de estudar muito, tinha de estudar dia e noite, mas pobre, de dia já tinha as coisas dele, e de noite para os pais não se arreliarem tinha de estudar à janela nas noites de lua para conseguir ver as letras. E as bochechas do Carlitos inchavam com tamanha admiração, ficavam vermelhas como o sol de um vagaroso entardecer de verão, e perguntava o pequenote: E depois, e depois? E depois, continuava o velhote de bigode branco, o Martim lia muito na janela à noite, à luz ténue da noite, mas por vezes espantava-se quando a lua estava cheia como uma bola e brilhava com tanta força que quase conseguia ver o caminho inteiro até à estrada grande para a cidade. Mas começou a perceber que quanto mais estudava à lua, menos vontade tinha de a abandonar, de fugir daquela janela que para ele já era quase encantada, onde até as estrelas que pensava estarem a ajudá-lo na sua missão, afinal apenas lhe lembravam os cadernos para ligar pontos e pintar que tanto gostava. E ficava ali a construir pontes de estrela em estrela, a arquitectar sonhos. E com a sua luz, com a sua beleza, faziam-no ficar cada vez mais apaixonado por aquele espectáculo. 

De boca aberta o pequenito Carlos parecia uma daquelas crias de pássaros, no ninho, sempre à espera que os alimentem. E o velho das mãos encarquilhadas continuava: até que chegou o dia do Martim ir fazer o exame para ser médico, apanhou a camioneta para a escola onde tinha de ir, entrou na sala à hora marcada e sentou-se quando lhe deram o enunciado. Não o chegou a virar, porque sabia que tinha passado mais tempo a admirar a lua que a ler as palavras que ela iluminava e portanto continuou a sonhar, de olhos abertos com o céu que tanto amava. Quando voltou para casa os pais, zangados, perguntaram: mas porque não fizeste tu o exame para que tanto estudaste? E o velho de joelhos cansados e ancas gastas continuou, com os olhos arregalados – e foi então que o Martim respondeu: Porque de tanto olhar a lua descobri que estou apaixonado e quero ser astronauta para viver para sempre ao pé dela.

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