quarta-feira, 14 de março de 2012

Aiôn em três actos


Está a ponto de começar a cantar a minha música preferida. Um rock vibrante que me deixa aos pulos de felicidade, cantando em coro com milhares de outras pessoas, uma harmonia perfeita de gosto musical e fãs dedicados. Está quase, e aos primeiros acordes é a loucura, todos estamos a vibrar de uma maneira para além do racional. Começamos aos saltos e sente-se electricidade no ar, cantam em coro: “you always had been mine, but your mind was kidding your heart... lá lá lá” que momento perfeito. Aos saltos com muitas centenas de amigos recém-feitos bambaleamos para a frente e para trás num mar de corpos quentes, suados e começam a agitar-se cada vez mais rápido. Tão rápido que perco o controlo dos meus pés que deixam de tocar o chão e a alegria começa a tornar-se preocupação. Mais um e outro acorde e aquela massa de sacos de carne parece ter-se tornado uma bigorna gigante que me golpeia. Já não me divirto e começo a temer pela minha segurança quão assustadora se tornou a multidão. Sem controlo no meu corpo, que resvala e se torce ao sabor de braços, pernas e troncos de outras que chocam contra o meu, não existe forma de me mover ou escapar, a minha única preocupação é manter o equilíbrio para não cair e evitar ser pisado. E continua o som ensurdecedor “You were joking around but now your life is mineeeee” Os corpos contorcem-se e sem poder fugir, deixo de lutar. 

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Um rock vibrante que me deixa aos pulos de felicidade, a música inunda-me os poros e transpiro emoção. Deixam-me efusivo as notas, sinto-me flutuar acima das notas. Quero apenas relaxar ao som do meu rock & roll. Raios de luz entram por todo o lado para colorir a minha canção. Não. Não são capazes de colorir nada. Tento, eu tento, mas não consigo desconectar daquele som irritante daquele pé a brincar com o estrado debaixo da mesa. Nem para compasso serve de tão descoordenado. Mandou-me outro email sarcástico insinuando a minha destreza mental parecer-se com um equídeo a cavalgar num pântano. Ou algo parecido. Eu não tenho paciência para isto e num impulso levanto-me e rasgo estas palavras na sua direcção: - o que é que queres dizer com isto? - Responde ele no seu tom sonso torpe: - Isto o quê? Eu penso em 35 milionésimos de segundo “isto o quê?” - ó meu bardamerdas mas estás a gozar comigo? - chamaste-me o quê? Isto é incrível, a maneira gratuita como ofende as pessoas! Não sabe fazer o trabalho dele, aquilo que faz está mal feito e ainda por cima dedica-se a ofender as pessoas, por inveja.
Meu grande nabo da... - e neste momento um colega puxa-me para o lado e leva-me para a parede depois da esquina do escritório, refugiado pela planta que parece uma pequena palmeira verde: - Zeca, fizeste o que ele queria, não sei o que agora que te pode acontecer. - Mas sei eu, repliquei. E numa corrida cega passei por trás daquele torpe e lhe apliquei o melhor carolo de sempre. Imutável e mudo, saí do escritório contente pela pequena vingança mas derrotado na minha honra agora em saldo.

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Mandou-me outro email sarcástico insinuando a minha destreza mental parecer-se com um equídeo a cavalgar num pântano. Ou algo parecido. Se fosse canibal teria o prazer de degustar agora mesmo um carpaccio da sua língua, mas não pactuo com torpes, nem para proveito próprio. Sem muito esforço, respondo: não se preocupe com o meu cavalo porque enquanto lê este correio posso com inusitada segurança afirmar que serei capaz de lhe ensinar (a si também se quiser) natação sincronizada nesse pantanoso chavascal onde gostaria de filosofar comigo. Já em perda da razao responde em letras vermelhas, talvez corpo 52 de Times New Roman “... vá você”. Como nunca fui de dar por perdido um bilhete para uma boa viagem apenas escrevo: “só se prometer que não fica aqui sozinho a empanturrar-se de bolotas”. Vermelho de raiva saiu porta fora, enquanto eu ainda hoje dou uma gargalhada de como não fui despedido naquela tarde.

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