terça-feira, 22 de maio de 2012

O som do descanso

Hoje quando entrei no meu prédio dei conta de um papel branco escrito à mão que estava colado ao lado do espelho que nos presenteia a entrada. Movido pela curiosidade natural resolvi ler o que estava redigido, não fosse algum aviso especial, algo de prestar atenção. Na verdade era um obituário. Não era a primeira vez que me encontrava numa situação destas. Habito num prédio onde de vez em quando, pela ordem natural da vida, e da idade das pessoas que aqui habitam esses anúncios vão aparecendo. O que mais me chamou a atenção é que era a minha vizinha de baixo. Uma pessoa que vivia a meus pés, literalmente, que eu conhecia apenas por barulhos e vozes. O meu prédio tem quatro casas em cada andar, e os vizinhos, principalmente de longa data, vão escolhendo as amizades. Não existe uma relação de proximidade num "olá bom dia", "boa tarde", "olá, quem sai primeiro do elevador?". Não, não existe. E apesar disso sentia uma proximidade absurda porque à noite quando me deitava era talvez o momento, em silêncio antes de me deixar ir nos braços de Morfeu, que por vezes partilhava da vida dessa minha vizinha, na voz das conversas que ouvia, dos barulhos que todos os prédios mais ou menos têm e sentem. Enfim, naquela proximidade absurda que me fazia crer de alguma maneira conhecer aquela outra pessoa. E cuja chama se extinguiu. Provavelmente se vir uma foto não sei sequer distingui-la, não existiam laços de amizade, nunca lhe fui pedir um ramo de salsa. Mas fez-me recordar  todas as caras conhecidas, amigas, familiares a quem quero muito e espero amar até à eternidade. É um pouco lamechas, talvez demasiado etéreo, mas sincero.
Espero que esta senhora descanse em paz.

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